sexta-feira, fevereiro 19, 2016
O baile dos sete mares - poema de Clóvis Struchel
- Marina Rabelo
----------
Apreciem, pois, o escrito de nosso convidado de hoje, Clóvis Struchel
O baile dos sete mares
Um conhaque
Um trago
As suas retinas
Marasmos
Eu fumo um cigarro
Outros vários
Algumas meninas
Me invadem
De certo embriagado
Um samba que toca no carro
O mesmo sentido
Desvario
Respostas
Que as horas me trazem
De novo um novo conhaque
Lembrança a toa
Um embate
Teu corpo
Teu dorso
Tua margem
As fulgurações
Um alarde
O samba compassa a voltagem
Delírio
A pele que arde
De novo e de novo um conhaque
Os Deuses convidam pro baile
Dos sete mares
Que seja miragem
Ou arte
quarta-feira, junho 09, 2010
Valerá a pena
Vale
valerá a pena
a pontada no peito
refeito em parcos conselhos
repleto de astúcias e dedos
imerso em secretos segredos
num bem-amar
bem ferido e bem feio
e o que será? não será
pois bem-feito
sim, cantará
seus tropeços
suas juras
com juros
seus anseios
seus caprichos
seus meios
e-mails
e medos
a trovejar
sob um céu de arpejos
declarará
que o amor marcou
mas não veio
e findará
ou virá
já refeito
a vivenciar
lençóis e travesseiros
mentiras, ironias
bemóis em melodias
meros, singelos
sonhos de padaria
quarta-feira, maio 26, 2010
Seu sim
Rude
Mesmo quando diz sim
Não pelo o que há de disperto
Em simplório gesto
Vê-se pequeno
Menor que os insetos
Que sugam suas coxas
E logo rumam pra outras
Seu sim
Espécie de alforria
Brancos libertos
A dizer:
Quase morro
Quando subo o morro
Sim
Som que espalha-se
Por entre as cortinas
Revistas antigas
Canteiros, cantigas
Sim
Prossiga
Em caso de dúvida
Liga
Jamais siga tendências
Elas tendem a desabrochar
Nenhum modo nem moda
Siga atentamente
Bobagem se preocupar
Com o jeito de caminhar
Tragos e conhaques
Esqueça os desastres
Lembre de sonhar
Não cure a ferida
Vil também vívida
Dói dos ralos cabelos
Até o vão calcanhar
Sim
Para travestis e putas
Vagantes, bruxas
E bruxos
Cortiços, luxos
Cantina, bar
Sim
Para o esfarrapado
E o burocrata
Sim sem ensaios
Sem jogadas
Sim
Ah sim...
Pra não negar
O osso
O esgoto
O desgosto
O cachorro
Sem molho
Ou com molho
Pronto pra salgar
O dente doído
Elo corrompido
O pai, o marido
O vão do umbigo
A centralizar
O que há de ser
O que há de sarar
Num tempo quando
Onde, ontem
Amanhecerá.
quarta-feira, maio 19, 2010
Chove sim, e porque não?
Chove pra fazer canção
cuva de inspiração
chove sim e porque não?
no asfalto frio do meu coração
Deixe que a alma lave e leve
deixe o que tiver de ser
brinque com seu filho
voe de ultra-leve
o que você vai ser
quando você crescer?
Dúvidas e contramãos
minhas mãos que escrevem tremem
deixe que os loucos tentem
deixe que os sãos se arrebentem
Nada do que foi ou fui
tudo do que sou em som
respostas em xeque
lógicas em teste
e eu ilhado no portão
Chove sim e porque não?
no asfaltofrio do meu coração
Chove sim e porque não?
no asfalto frio do meu coração
quarta-feira, maio 12, 2010
Seu Sim
Mesmo quando diz sim
Não pelo o que há de liberto
Em simplório gesto
Vê-se pequeno
Menor que os insetos
Que sugam suas coxas
E logo rumam pra outra
Seu sim
Espécie de alforria
Negros libertos
A dizer:
Quase morro
Quando subo o morro
Sim
Som que espalha-se
Por entre as cortinas
Revistas antigas
Canteiros, cantigas
Sim
Prossiga
Em caso de dúvida
Liga
Jamais siga tendências
Elas tendem a desabrochar
Nenhum modo nem moda
Siga atentamente
Bobagem se preocupar
Com o jeito de caminhar
Tragos e conhaques
Esqueça os desastres
Lembre de sonhar
Não cure a ferida
Vil também vívida
Dói dos ralos cabelos
Até o vão calcanhar
Sim
Para travestis e putas
Vagantes, bruxas
E bruxos
Cortiços, luxos
Cantina, bar
Sim
Para o esfarrapado
E o burocrata
Sim sem ensaios
Sem jogadas
Sim
Ah sim...
Pra não negar
O osso
O esgoto
O desgosto
O cachorro
Sem molho
Ou com molho
Pronto pra salgar
O dente doído
Elo corrompido
O pai, o marido
O vão do umbigo
A centralizar
O que há de ser
O que há de sarar
Num tempo quando
Onde, ontem
Amanhecerá.
quarta-feira, maio 05, 2010
Vísceras Viscerais
Me insulta
Chuta
Quebre meus ossos
Veja sangrar meu nariz
Engula o diz que diz
E berra insana no portão
Soque, amasse, arranhe
Pode chamar sua gangue
Que atirem insanos
Seus meros canhões
Que abram feridas
Tal qual roupa puída
Costure os meus pulmões
Vísceras, viscerais
Deteriore meu crânio
Amarre os cortes num pano
E não se acanhe com meus ais
Martele, atire, fere minha febre
E os meus ideais
Carnavalize
Use o ardor dos bacanais
Coma meus olhos
Em frígido ódio
Só não me diga nunca mais.
quarta-feira, abril 28, 2010
Distintas abstrações
Frestas, certas estranhezas
As dúbias respostas e os ratos
Sorrisos baratos de sábado
Os carros todos se entranhando
Um dia ainda conversam
Fumaça de breves cigarros, enganos
Amores de final de festa
A vida lá fora e aqui dentro
A vida pulsa todo instante, inteira
Nos becos e nas avenidas
Favelas, palácios, asfaltos, polícias
A lapa é o espelho e a nudez da vez
Bandidos, patrícias, malucos e bichas
Os mares arrebentando
Nos pálidos pés de clarinha
As doces memórias de infância
O cheiro do bolo e a farinha
Os destinos que se entrelaçam
Nem sequer se perguntam nomes
Distantes olhares, pertos horizontes
E as ondas que vão navegar para onde?
Perguntas e vinhos tintos
Distintas abstrações
Pianos e violinos
Destoando as canções
Eu trago sempre comigo
Um verso no bolso e no riso
Passante do Rio, eu vou indo
Até Posto 9, brados coloridos
Me despeço das tantas pernas
eternas, demônias, morenas, só delas...
Meninas do Arpoador
Eu amo seus olhos vermelhos
O samba no andar e na cor
Sutilmente me chamou
Pois é, mas já vou...
Já é, paz e amor.
quarta-feira, abril 21, 2010
Cinco para às seis
das noites mais frias daí
de longe assim dá pra sentir
o descompassar que há de vir
Qual é a hora?
quando é verão pra lá do horizonte?
se for agora...sempre demora
mais um segundo fluindo os instantes
E essa saudade
qual o assunto da pauta do mês?
tantos caminhos indo e vindo...
quase só, quase sorrindo
quase cinco para às seis
Viajante dos muitos mares
amares por todo o quarto
ultrapassando as cortinas
reverberando os compassos
Sereia desta baía
seria alheia aos meus versos?
toda distância em si chama
para bem mais que o mais perto
Musa das canções que fiz
junto ao baque das ondas
pés na areia, sigo às tontas
como fosse tudo afinal de contas.