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domingo, novembro 08, 2009

Pra meninar de novo




Coisas líquidas
atravessam seus lírios,
menina.


Jazz na boca
peixes loucos e belezas.


Tanto chão a meninar,
irmã linda potiguar,
a lira resiste acesa.


Onde os segredos morenos?
as manhas felinas?
nossas coisas de raiz?


Neste pote dágua e terra
meu clamor de amiga encerra:


“diz que fica, diz”.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Um jeito

Antes dos trinta
pensei estaria pronta para as transcendências:
um corpo punhado ao meio
dois tantos de paciência
cachos de queixas penhorados na última briga de amor.

Mas o dia me traz comprimidos,
poeira até o nariz,
um suor carregado de tristeza
e poesia queimando sem conseguir nascer.

Outra seria se não desejasse apenas o natural?

sexta-feira, outubro 16, 2009

Em lua arada

gosto de cheiros
trincados
dentro da boca

apavoram-me
engolir desejos
aquietar doiduras

pendula o barco
por todas as proas
até transborde a lua

grãos de mel
sementeiam
escrevendo estrelas
pelas ruas


Iara Maria Carvalho

sexta-feira, outubro 09, 2009

transmutação

minha formiga
aquece areias
ao caminho da roseira

quando o rastro é de manhã
deita sobre a rosa
e de si mesma esquece

cantares de cigarra lhe
formigam por dentro

uma flor no lugar do coração.

sexta-feira, outubro 02, 2009

cobertas

ousa carícias
e temperos
na foz lírica
de minhas coxas:

lambe selos,
abre a boca.

o paraíso escor-
rega
espumando lírios
sobre as roupas.

Iara Maria Carvalho

sexta-feira, setembro 25, 2009

Se fico amando dentro dos gestos,
é por atenta às tuas ligeirezas:


conserto o nó da gravata,

aparo pêlos,

aprendo uma canção.


Tudo que me ousas entregue

é de luas minguando,

dormências de pôr-de-sol.


Se desatinares aguaceiro,

sobram-me litros para o batismo?

orvalho para as tristuras?

suores para o pavio?


Enxutas,

minhas mãos tomam-te o pescoço

como unhas


e cortam-te.



Iara Maria Carvalho

sexta-feira, setembro 18, 2009

enfeitizando

quem sabe as
lendas de iara, não
invade
rios por in-
censo e medo:

diz quesquece,
diz.

cria nova
lenda,
aprende feitiços,
inventa canções.

levita amores sobre
o leito,

que o rio leva,
que o rio lava,
suas lendas de iara,
seus assombros
de ternura
rara.

diz que afoga,
diz.

iara nem nada longe
faz que morre
e amanhece no seu dorso

voz que amarga fosse
não se lanha a cantar
de novo.


Iara Maria Carvalho

sexta-feira, setembro 11, 2009

"Porque há desejo em mim, é tudo cintilância"
Hilda Hilst

batizado com um nome secreto,
o homem que me gula
diz sabências na hora do amor.

esquisita e rubra,
faço que pertenço ao seu dorso,
desabotoo a camisa,
entre as pernas lhe coo.

neblinas de espessura e doces
tremulam pontos de luz
sobre o corpo.

agora finge que dorme
abafando risos entre os pomos.

Iara Maria Carvalho

sexta-feira, setembro 04, 2009

Seduz

Ladra seu sonho insone,
em saudade, vinagre e doçura.


Adélia Prado


feitiça de longe
amaciando palavras de barro:

flores atacadas por saúvas
cajus travados na garganta
silêncios segredando sonhos.

se me dá uma água de beber
bem no meio do deserto,
o vestido desce ao chão
arrastando nu tecido
(pernas, poemas, estrelas)

escapa das mãos
um primitivo toque cigano
adivinhando o cheiro de vinagres e desejos.

irrigada de águas agridoces,
minha boca amanhece com seu nome dentro.

Iara Maria Carvalho

sexta-feira, agosto 21, 2009

sexta-feira, agosto 14, 2009

Narcisa

agora que sou uma
mulher aprendida
no amor

recolho os frêmitos elaborados
frente às águas

e ao meu sono fluvial retorno
como uma sereia desativada
pra peixes e homens.

Iara Maria Carvalho

sexta-feira, agosto 07, 2009

CICLO

irrigaram mel
na minha veia

mês passado
menstruei formigas.


IARA MARIA CARVALHO

sexta-feira, julho 31, 2009

Na janela

Quando minha mãe
me deu o punhado da meninice
não havia já pedra no seu coração.

O milagre acontecido no meu nascer
pendurou estrelas
na tristeza de seus dias.

E ao escrever poesia
é só um gesto de ir embora.

Iara Maria Carvalho

sexta-feira, julho 24, 2009

ERÓTICA

não quero colo
nem calo:

quero um falo
entre as telhas
do meu mel aguado

coar o vinho pastoso
com minha fenda oblíqua

e acender poesia
com a flama recolhida.


IARA MARIA CARVALHO


~~~~~

Poema da querida Iara, de quem sou fã confessa, que irá nos presentear com sua poesia por algumas sextas. É uma honra ter a Mulher na Janela aqui neste espaço. Espero que gostem! :)