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segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Tudo se mexe


Tudo se mexe
Ao redor da sala
E no centro
Eu me sento

Tudo ao redor da sala
Sou eu sentado
E esse movimento
Que diviso por dentro

A criança cruza
O cachorro salta
É a televisão
Verborrágica

O silêncio canta
E descreve o mundo
A lápis no verso
De um formulário velho

Catalogado, o ser
É as frases no inventário
Do que vê a sitiá-lo
A mesa esquiva e eu

Um tapete movediço e
Esta porta uma boca afoita
Que me chama de verdade
Imaginária e inventada até

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Não verdades não mentiras


Não verdades não mentiras,
nem terceira via, ou quinta
dimensão, tão somente poesia.

Sem tratados, normas, guias,
filosofia ou teorias de antemão.
Poesia apenas, como quem brinca,

compõe ou canta uma canção.
Ou quem um sonho cria,
porque transviu, porque tem mão.

Porque o mundo, descobriu,
se tem sentido ou intenção,
é coisa nossa, e construção.

domingo, julho 03, 2011

Leandro Jardim

O primeiro post desse blog é do querido Leandro Jardim, então nada melhor do que começarmos com seus poemas.

Apreciem!


ARBíTRIO

1. Alternativa

o caminhar
alguns passos mais
o chão
viu o buraco
a penas
depois
soube-se
levantar
o caminhar

2. Alternativa

soube-se levantar
o caminhar não
impedido pelo aviso
antes
pela paternimaturidade
o que havia do lado
de lá não
soube-se
(estrofe mais curta)

3. Conclusão

E ainda há quem pondere sobre alternativas já testadas.



RASCUNHADO

Às vezes um pensamento vem bom,
como sino na brisa.
E o lápis, pronto, e o poema
(versão um).

Outras tantas é o branco do papel que chega
à mente sur ton.
E me sujo a rascunhar pensamentos
(menores versos).

Mas toda origem é filha da labuta.
Seja na avidez com que se traga os dias,
seja pela intenção que ganha a vida.

O irônico da coisa é o tempo
da poesia,
que quando se faz
já é passado
(a limpo).



ÚLTIMO-ATO

meu estado é terminal:
é ter-me now
or never



MENINA ADVOGADA

(para uma bela transeunte
que passou na minha frente
numa tarde qualquer no centro)
Teu belo corpo e matreiro
Não se esconde por trás das vestes formais
Teu charme que até cotovelos
Distrai dos esnobes sapatos aos pés
Teu salpicado em ondas cabelo
É ninho tal que não há não querê-lo
Teu passar de sumiço à esquina
Tem dissonância qual música linda
E teu sério dom de mistério
É, meu bem, meu puro despautério



E O LÁPIS

.
De cada papo que toca o céu,
o papel.

Da tal conversa que não disperso,
o verso versa.

E à boa idéia que fácil se acha,
a borracha.



Leandro Jardim escreve no blog Flores, Pragas e Sementes...



terça-feira, julho 22, 2008

Despedida, ainda que nada seja definitivo na vida...

Por agora vou desistindo
de pertencer à geração,
de lecionar antigas réguas
e de muita pretensão.

São como malas
atiradas de um balão,
em que agora me avisto
e que, por ora nu, o visto
a voar por onde o são
(ou ainda serão)
salas... de estar,
valas... do errar,
cortes, tombos e talas,
desejos e outras estrelas.

Até onde não atinei, cantá-las,
mas me sei mais leve, as entôo.
E quero mesmo é algo que carregue-me
à margem de outra viagem
sem ancoragem desde já necessária,
mas plena de beleza em forma vária,
ou algo dessa natureza.


---------------------------
amigos,
sei que a semana é de poemas curtos.
Mas como hoje ainda não havia
meu substituto,
alonguei-me à despedida.
E com esse poema antigo,
pleno de algo novo que me invade,
do B7C me dispo e despeço,
já com essa doce saudade!

terça-feira, julho 01, 2008

Caminhando e pensando

Existe uma certa profundidade
que ingênuo busco nas coisas,
e caricato (ou pior,
chato). Quando do nada
melhor seria a piada.

terça-feira, junho 24, 2008

Verdade purinha

Era um santo, nem assim tão santo,
mas, ainda assim, santo, que desceu
do éter infestado de pedidos, lamúrias
e promessas para resolver as pendências
de um milagre digno de Cristo para Lázaro.

Costurar um manto sagrado, a sua missão
desafiadora um tanto, tanto que desfiou
até calejarem as asas sem pena ou pranto,
um santo fardo de um pano de vento
que curaria dos ébrios a sede e o lamento.

Mas um tal bêbado não queria saber de roupa,
de manto, de robe, de capa, qualquer coisa
de cobertura para a nudez desnuda e sem
vergonha – o álcool censura a censura
do pudor mundano que veste de moral
moralista o sujeito. Então o santo, que
não era tão santo assim desde o primeiro
verso, aderiu à braba birita e saiu também
pelado, cantarolando nu, pela avenida.

E os dois ali, reverenciando o álcool,
contrariando Alá e se sentindo algo,
festejando o eu - aquele outro Deus,
pelos bares e bares e breus da cidade.

Pronto! Estava feito o milagre milagrento,
ainda que o santo não soubesse que estava
feito e que o autor fosse um ateu bêbado.

(Deus age de maneiras misteriosas;
idem a cachaça).



parceria com o inigualável Remo, que escreve acolá

terça-feira, junho 17, 2008

banho de sol (2)

amanhã
pés descalços na areia
brisa quente nos cabelos
gotas de sal na boca
raios de sol entre os dedos
verão que desnorteia
a manhã

à manhã
verão o que incendeia
as vitórias sobre os medos
a sanidade de ser louca
e a pele pelos pêlos
dessa tarde que alardeia
amanhã
[mary & jardim]

sábado, junho 14, 2008

Reforma

Por mim não tem problema,
é sempre novo um poema,
mesmo quando nasce do que já existe,
mesmo quando há um dilema,
é como um som que persiste.

Todo novo é sempre um velho tema,
mesmo se ninguém ainda o disse
do jeitinho em que ele insiste,
de outra forma já inspirou a pena
de quem que sentiu como sentiste.

Nada se cria, tudo se transforma?
Então, poetas, à bigorna,
pois o mundo como hoje se apresenta
é soneto sem rima nem emenda,

é uma coletiva obra-prima
feita do que do que falta e do que sobra.
Eis que toda a matéria ainda é viva
quando um poeta a contorna.

Façamos então fôrma à forma...

(Grande Garden & moacircaetano)

terça-feira, junho 10, 2008

a conquista da derrota

Perdi a pressa
pra essa onda de acúmulo
e calma e risco e vínculo
do que ganho em minhas perdas.

Perdi a guerra, a graça,
ao cair do pano
em plena praça,
e nada mais me interessa.

[Múcio & Jardim]

domingo, junho 08, 2008

O pulo

O pulo do tempo
tirou do impulso
o pulso e o poema

Uma força contrária
lhe trouxe à mente
o ser e o sentir

Um fechar de olhos
secou no momento
a lágrima e a história

A perda do tema
atirou no vazio
a pena e o poeta

(Fejones + Jardim)

terça-feira, junho 03, 2008

somos sinos sozinhos

só no nosso sono
somem sem som
a sombra dos sonhos

enquanto em alto e bom tom
sobem cortinas sem dó
sobre a dor de nossas sinas

expondo, assim, em praça aberta
sobre a luz dessas retinas
almas sozinhas, pesadelos tristonhos.

(aline + jardim)

segunda-feira, junho 02, 2008

climatempo

Passado frio
Que venta, venta
Nos faz tremer e inventa
Um velho jeito de inverter

Passado o vento
Que esfria, esfria
O próprio corpo esquenta
Um novo ontem pra aquecer

(czarina + jardim)

terça-feira, maio 27, 2008

Extrañamientos

1.
Não estou só quando
tenho meu papel
para o diálogo frio,
ou quando a esperança,
ou o medo de que não venha
a mudança tão cedo:
ando atrás da nossa lenha.

2.
Comi as empanadas,
as janelas, as vantagens,
até as calçadas, largas
avenidas, curtos alívios
da fome de ti, querida.

3.
São os meus silêncios, amor,
que me lembram teu dezembro,
trazendo em calafrios a estação
que não me sai do pensamento:
você, a quem meus olhos
ainda verão.

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Abril de 2008
(da série Poemas Porteños)

terça-feira, maio 20, 2008

Otros aires

Borbulha o gás da água
e da rua, que reflete-

se em meu copo.
A beberia a ver

o que veria, mas já não
me compete o que haveria
no ontem e mais à frente.
Além da via daquela noite,

que não segui,
e alheia a mim
foi-te.

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Abril de 2008
(da série Poemas Porteños)

terça-feira, maio 13, 2008

Jardín Japonés: Un Día de Abaporu

Apesar de Japonês
o Jardim (não eu,
o ponto turístico de Buenos Aires)
lembrou-me minha natal Copacabana:

aquelas bocas pedintes
de peixes, como meninos,
contrangendo-me à despeito da paisagem.

Antes havia eu visto Tarsila,
a Viajeira,
justo num museu da Argentina,
pela primeira vez.

Era novamente outro eu ali,
nem brasileiro sendo: mais
um Jardim estrangeiro
pelos dias que vivi.

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Abril de 2008
(da série Poemas Porteños)

terça-feira, maio 06, 2008

El Árbol

Estável
como o movimento
dos carros que tentam contra a via,
a árvore
- em suas folhas, crescendo sempre -
abraça o bocado de vento,
dando sombra a alguns
e luz ao pensamento.

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Abril de 2008
(da série Poemas Porteños)

terça-feira, abril 29, 2008

Las Ruinas

São boas as ruínas,
nos dão certezas
também evanescentes:
há lua muito antes
do sol poente.


Abril de 2008
(da série Poemas Porteños)

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Andei sumido, mas passo por aqui
ao passo do caminho que ainda sigo,
atualizei a semana de convidados
com um poema do
porteño Borges.

terça-feira, abril 22, 2008

JAMES JOYCE*

(do livro Elogio da Sombra)

Em um dia do homem estão os dias
do tempo, desde aquele inconcebível
dia inicial do tempo, em que um terrível
Deus estabeleceu os dias e agonias,
até esse outro em que o onipresente rio
do tempo terreno retorne à sua fonte,
que é o Eterno, e que se apague no presente,
o futuro, o ontem, o que agora é meu.
Entre a aurora e a noite está a história
universal. Da noite vejo
a meus pés os caminhos do hebreu,
Cartago aniquilada, Inferno e Glória.
Dai-me, Senhor, coragem e alegria
para escalar o cume deste dia.

J. L. Borges.

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Por motivos de viagem e imenso atraso, passo
por aqui a preencher meu espaço com um ilustre
convidado: Borges. Inauguro, assim, aqui e no meu
blog uma temporada de Poemas Porteños

* A tradução é minha.

terça-feira, abril 15, 2008

Todo poema

Todo poema deve,
por humildade,
ser alcançável.
Ou talvez mais,
oferecido.

Todo poema precisa
ser um tanto táctil
ou holográfico.
Ou amassável, mesmo
que seja rígido.

Todo poema, mesmo
que do umbigo,
não pode ser protegido.
Ao ponto de esconder-se,
que deixe ângulo visto.

Nenhum poema necessita
ser em nada como todos
os outros, mas como todos,
os outros necessita.

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Amigos, por isso convoco-os
ao lançamento do meu livro
todas as vozes cantam
hoje, às 20h, no bar Da Graça,
no Jardim Botânico. Mais aqui.
Aos que não puderem, peçam nas livrarias.
Aos que não puderem, encomendem.
Aos que não puderem, tudo bem também.
:)

terça-feira, abril 08, 2008

(Nem tão João Cabral, mas em homenagem ao tal)

Quando a faca é só lâmina,
nem o bom poema
(desfeito do melodrama)
a trama anima
ou a rima ajeita:

é a conseqüência d'alma
(ou d'uma dama)
feito corte.


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* Amigos, em uma semana lanço meu livro, confiram aqui.