Era um santo, nem assim tão santo,
mas, ainda assim, santo, que desceu
do éter infestado de pedidos, lamúrias
e promessas para resolver as pendências
de um milagre digno de Cristo para Lázaro.
Costurar um manto sagrado, a sua missão
desafiadora um tanto, tanto que desfiou
até calejarem as asas sem pena ou pranto,
um santo fardo de um pano de vento
que curaria dos ébrios a sede e o lamento.
Mas um tal bêbado não queria saber de roupa,
de manto, de robe, de capa, qualquer coisa
de cobertura para a nudez desnuda e sem
vergonha – o álcool censura a censura
do pudor mundano que veste de moral
moralista o sujeito. Então o santo, que
não era tão santo assim desde o primeiro
verso, aderiu à braba birita e saiu também
pelado, cantarolando nu, pela avenida.
E os dois ali, reverenciando o álcool,
contrariando Alá e se sentindo algo,
festejando o eu - aquele outro Deus,
pelos bares e bares e breus da cidade.
Pronto! Estava feito o milagre milagrento,
ainda que o santo não soubesse que estava
feito e que o autor fosse um ateu bêbado.
(Deus age de maneiras misteriosas;
idem a cachaça).