quarta-feira, dezembro 08, 2010

Foi passeando pelas luzes que entrecortavam os agudos sonoros que você, por um minuto, ficou imóvel. Mas foi por aquele carnaval que você se mostou mais flor do que espinho, pois não havia nada que te faria vacilar e, talvez, não experimentar uma nova possibilidade de ser feliz. Esta, aliás, que você insiste em chancelar com as suas palavras sempre ornamentadas, quando me chama a atenção para alguma coisa que é sempre menos bela que uma borboleta, aquela mesma que quando você vê, rodopia mais rápido que o vento e volta a ser criança, ainda exibindo trancinhas. E qual é a sua cor? E qual é sabor que ainda fica na sua boca? E quantos planos ainda teremos para atravessarmos toda a história que nos reserva? Eu deixei de me lamentar pela ausência do calor no peito quando você me disse que as notas que soam em você são as mesmas que soam em mim, e que, de manhã, você gosta de abrir a cortina, ainda que não tenha a menor paciência em começar um dia. Um dia eu vou escrever na porta do seu armário meu poema favorito, assim, sempre que você abri-la, vai esquecer a roupa que quer vestir porque você novamente ficará imóvel pensando em como a gente dá tão certo junto. E você sabe que isso é verdade, senão não teríamos tantas palavras em comum no nosso cotidiano.

domingo, dezembro 05, 2010



Nosso último olhar
O mundo parou
Fitou-nos atentamente
Observou a lágrima
O movimento de adeus
Respirou fundo
E deu de ombros

Ainda há muito para girar



sábado, dezembro 04, 2010

Anoitecer com sol:

o calor entre um

e outro lençol

sexta-feira, dezembro 03, 2010

para Juliana Brandão


dói e ponto
não
dói vírgula mas
o tempo curará

- eu mesma.

quinta-feira, dezembro 02, 2010


Eu lembro de quando era o soldado disposto a lutar em terra estrangeira.
O caçador que trazia alimento das matas, para você.
O destino do meu tempo era procurar
atrás dos seus olhos
as coisas felizes.
É duro imaginar que logo virá alguém mais
para te convencer
de que fui apenas outra mentira.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Pode ficar tranquila, meu bem
que nesse vai e vem
sobra só a gente
e mais ninguém.

(Luiz Guilherme Amaral)

terça-feira, novembro 30, 2010

Bagagem

Dor.
Um velho gravador.
Algumas coisas sem valor.
Fotos com ela e cartas de amor.

É...
me falta ódio e sobra fé...
podem dizer o que quiser,
mas meu caminho eu percorro a pé.

Então
não me fale de solidão.
Há tempos eu não piso o chão.
E aqui em cima só chuva e trovão.

...
Não havia nada a fazer
e foi só isso o que eu fiz.
Continuei a ser infeliz.

Dor.
Um velho gravador.
Uma foto sua já sem cor.
E essa maldita canção de amor!

segunda-feira, novembro 29, 2010

Vazio

Tem nada aqui dentro.
Nada.
E ainda é necessário escrever.

Tem nada nesse peito.
Vazio.
De doer.

Tem nada mais pra se dizer.
Nenhum carinho, nenhuma palavra
de festejo ou de lamento.

Não há nada além da imensidão do momento.

domingo, novembro 28, 2010

ENXURRADA

A poesia lambe cada poro da minha pele suada
E manda (não pede) que sinta na boca,
Bem lá no céu da boca, esse roçar de enxurrada.

sábado, novembro 27, 2010

genealógico

Que nenhuma lágrima sua

Tenha o meu nome

quarta-feira, novembro 24, 2010

Tenho escondido debaixo dos meus punhos
planos para nossas aventurinhas - simples
quando eu souber que você está nos ares
eu também vou pelos ares de felicidade
saberei que seremos poucos centímetros

Saberei que seremos um só pensamento:
apenas caminhar, beijar e admirar
entre as ladeiras e as escadarias - belas
ao passar os tambores pelas ruas estreitas
nós faremos parte de todas essas estrelas

Porque você támbém
é a minha estrela
a maior, única, noite e dia
é em você que eu me reconheço

(Luiz Guilherme Amaral)

terça-feira, novembro 23, 2010

Dia da Consciência

Pelo menos por um dia
ler as mentes dessa gente
com as mãos.

Entender o que pensam
das vagas das águas negras
universitárias diplomadas
subscrevendo com os dedos.
(Deviam usar os dedos médios!)

E da lei que vem impressa
nas caixinhas longa-vida
abundantes vertendo
até encher as barriguinhas.
(Lei te dá exclusão!)

E do princípio do politicamente correto
que nos impõe a hipocrisia eufêmica
dos dizeres ininteligíveis
sobre diferenças não aceitas.
(Dezenas de autóctones tiveram suas vidas
suprimidas por infantes de dezessete anos,
descendentes de alguém, que brincavam
com o produto da combustão de
materiais inflamáveis!)

Pelo menos por um dia
pensar os pensamentos
com as próprias mãos.

Porque enquanto tudo isso, os garotinhos
pilotam aviõezinhos de papel
no morro cartão-postal.
(Se não sabem ler,
como tiraram brevê?)

Porque enquanto tudo isso.

...

sexta-feira, novembro 19, 2010

cuando mi corazón falla

volta-se para aquele instante


o lado certo é
parar no que é ainda bonito como
meu descer do seu carro
.......que sempre esperei durante as manhãs, olhando pela janela
e decidir parar e te olhar
.......antes de atravessar a avenida:
..............................acenar.

quinta-feira, novembro 18, 2010

Eu ando gastando pedaços incríveis do meu tempo,

baldes de horas e minutos.

Atrasando projetos e horários, irritando um monte de gente muito séria.

É que tem acontecido de, por uns instantes, eu nem me lembrar mais

que pertenço a esse mundo de dias ruins e dias tristes, em que o que

mais importa é o trabalho, as metas e cronogramas. Espero que as pessoas

não se magoem demais, mas eu ainda quero ficar mais um pouco assim.

Deixando o tempo voar para longe. Vivendo cada um desses momentos.

Me aquecendo nas fagulhas que saem dos olhos dela.



quarta-feira, novembro 17, 2010

O coração não é de se deixar sobre a mesa
você tem que guardar debaixo dos seus sonhos
e usá-lo como escudo contra aqueles grosseiros
que veem um jardim e pensam em pisá-lo

Minha linda, minha estrela
caminhe pelas letras das suas músicas favoritas
porque todas elas foram feitas para você
E quando você começa a cantar
enquanto calça aquelas meias bonitinhas
não há amargura que não escorra pelos vãos
do seu quarto, que é a torre do castelo,
indo embora, indo bem longe de você
que é linda, que é um poema

É você,
tão bonita quanto uma flor à sombra de uma cerejeira
que balança toda singela

Você é toda singela, toda amiga dos pássaros
você é o máximo

Não deixe seu coração encostado em qualquer canto
se preferir, guarde-o do meu lado
ou dentro do meu coração
e nós seremos uma chuva de sorrisos
Linda, poema, estrela

(Luiz Guilherme Amaral)

terça-feira, novembro 16, 2010

no rascunho

Às vezes você entra
de mansinho no meu pensamento
Vai construindo versos imperfeitos
e eu me deito em suas metáforas
num descanso pleno de verbos inconjugáveis
...às vezes você brilha nos meus olhos
com suas derivações impróprias...
e brinca de me confundir com formas reprováveis
...às vezes você surge quase finalizado
E eu o desprezo como um filho abortado
E você fica guardado no canto
...às vezes você me poeta
Mas a rima fica em branco

segunda-feira, novembro 15, 2010

Laralarala

Ligo o rádio por ora.
Estações evangélicas.
Sertanejo 24 horas.
Oras, ninguém mais ouve música de qualidade?
O que houve com a arte?

Calipso, tecnobrega, axé.
Pra quem gosta de merda, prato cheio.
Pra quem não gosta, receio
que não haja nada a se fazer.

Benditos celulares mp3 e suas portas USB!

sexta-feira, novembro 12, 2010

dois corpos esticados na calçada da grande avenida.

a declaração de amor entre
os passos, as conversas, as risadas abafadas
perdia dentro deles. era eles.

dois corpos esticados na calçada da grande avenida.

essa é a minha primeira lembrança viva de amor
além de mim.

quarta-feira, novembro 10, 2010

Antes que o sol se esconda de inveja
da luz que você dispara à sua volta
eu, que te desejo de volta,
mesmo sem ainda não ter te tido
fico aqui só contando
por quantos quilômetros viajariam
meus dedos passando por seus cabelos

Eu voarei por muitas palavras
singelas como aquele seu sorriso de outono
enquanto morde o canto do lábio a pensar
Mas eu, que ando tanto a divagar
esperando que um dia você apareça
para pagar às águas soteropolitanas
aquela promessa de nós dois
completamente esquecidos de tudo
deixando-as lavarem nossos pés

Até o dia em que você, insistente,
começar a caminhar pelas páginas dos meus cadernos
e perceber, soluçando de assombro
como eu sei desenhar sua boca tão perfeitamente
e como você se multiplica em flores amarelas
aquelas que estão nos campos

Seu nome tem a música das asas das borboletas

(Luiz Guilherme Amaral)

terça-feira, novembro 09, 2010

Combinação

Se já é hora,
então vamos lá.
Ninguém vai reparar
se formos felizes agora.

Não vá desistir
no meio do caminho.
Eu trouxe vinho,
e mais outras coisinhas,
está tudo aqui.

Me preparei por anos
pra esse momento.
Se você se arrependeu, lamento.
Não há mais enganos.

Me dê sua mão
e deita aqui comigo, no chão.

Te digo: chegou a hora
e nada vai nos atrapalhar.
Estamos combinados:
você não vai mais embora
e eu não saio dese lugar!

segunda-feira, novembro 08, 2010

Segunda-feira

O chão está mais perto da minha cabeça
ou foi o céu que se distanciou?
E esse azul pálido preenchendo-me a manhã?

Pensei que o sol fosse remédio pra tudo,
mas descobri que o calor não é garantia de nada.

As formigas, inquietas, tentam me consolar
com suas lições já manjadas de vida.
Mas elas não aprenderam minha linguagem.

Então espero por algo que me preencha,
mesmo conhecendo meus furos um a um.

sábado, novembro 06, 2010

coisas de vidro

já tinha postado no Sabedoria, mas...

O tempo pára enquanto anita segura o jornal

O jornal aberto em espelho

Não mostra um trem descarrilhado

Milhares de mortos, uma criança perdida

É o caderno cotidiano

Os benefícios da reciclagem

E uma nota no canto esquerdo

O marido de anita está fora

Ele anda na rua e não sabe

Na coleira vai Rodolfo, nariz úmido colado ao chão

O cão pára frente ao sinal

Na rua ele não é um cachorro

É um soldado, uma enfermeira, um pai amoroso

Não há tempo para postes e latas de lixo

Não há tempo para latir para o carroceiro que passa

Há que se levar este homem que não enxerga para casa

Esse homem que leva ovos e leite e lhe dará um biscoito quando chegarem

Quando ele poderá se coçar e ser um cachorro

Anita não decora a casa há anos

Nada jamais muda de lugar

A banqueta um pouco à direita é um tropeção

Uma porta inadvertidamente aberta, um hematoma

Cada coisa em seu lugar e é como se Rubens enxergasse

10 passos entre a porta e a cozinha

escova de dentes: 1 palmo à esquerda da pia

E por isso a casa idêntica por pelo menos 20 anos

O mesmo perfume há 30

Rubens e o cão no elevador

Um signo de pontinhos: terceiro andar

São 10 passos até a cozinha, um biscoito

Uma nota na página esquerda

Caderno cotidiano

Desimportante

Um perfume que sai de linha

Uma fragrância que não mais se fabrica

O único rosto que um marido conhece

O mesmo cheiro dos lençóis, dos travesseiros

Que a três passos adentro da porta diz:

Anita já chegou

Anita está na cozinha

Anita está na sala e come pipocas vendo televisão

Anita que será uma estranha

Ao fim de dois dedos

Dentro de um vidro

sobre a penteadeira

3 palmos à esquerda de uma caixa de bijuterias

a 20 cm do espelho

a 1 metro e meio

do chão.

quinta-feira, novembro 04, 2010


meus amigos são tentáculos. me levam além do que sou.

meus amigos são mágicos. afastam a tristeza quando aparecem.

meus amigos são desafios. não permitem que seja fácil demais.

meus amigos são quânticos. interagimos por partículas subatômicas.

meus amigos são guias. de fora mostram o que eu não vejo.

o sublime, o louco, o ridículo na minha vida.

meus amigos são fenômenos naturais. suas leis me escapam.

humanos, errados, curiosos os meus amigos.

são só uns poucos, por isso mais reais.

Amigos. E meus.


quarta-feira, novembro 03, 2010

Hoje não teve lua
a culpa foi sua.

(Luiz Guilherme Amaral, com parceria)

terça-feira, novembro 02, 2010

Lembrança sonora

Ouço sua voz
assoviando
...arrepios
em meus sentidos!
Ouço seus soluços
(inaudíveis sons)
seus gemidos...
Ensurdeço!
Sussurros
entristecidos
(solitários)
que soam
nos meus ouvidos...

segunda-feira, novembro 01, 2010

dilúvio

Serra, prega e aparta

aquilo que já foi semente.

Somente Noé sabe

quanto bicho cabe

na arca

e não importa quantos para fora

ele deixe

virarão

comida

de peixe

Triste

E então
tua mão pousou em minha mão
como quem pede perdão.

E eu nào
acredito que não
sou mais quem você ama.

E o que me dói saber
é que nem amo você!
Só queria estar em sua cama!

domingo, outubro 31, 2010

VEM

Vamos sair pela rua
Assim como quem nada quer
A redescobrir-nos,
A cobrir o sol que manda
E exala o cheiro guardado da noite,
Feito crianças que somos
Atrapalhando a calçada
Feita para andar de mãos dadas
Feita para o ir e vir
Entre tantos.

Vamos, me segue,
Nessa busca louca do sentir o que não vemos,
Dessa queda roxa na palavra que prevemos,
Nos domingos cheios de bemol
E de beijos.
Sim, me acompanha nessa luta,
Contra os males que nos cobrem a alma e o rosto,
Pois se te quero, agora,
É por estar disposto
A ser mais que um retrato
A apertar o laço
Que nos envolve a boca.

Vamos por onde for
Ser poeta, verso, música e flor,
Ser mais do que nos cobram,
Ser mais que amor com toque de instinto
Porque provamos, na mesma estrada,
Que o querer é menos do que sinto,
Que o rastro é mais que o destino.

Vem,
E juntos acabemos com a aflição
Destas curvas.
Que antes de serem marcas
Foram histórias todas as minhas rugas,
E te servirão bem de mapa nos atalhos
Que ainda não enxerga.
Pois sei o que quero, sou mendigo, menino,
Poeta cheio de prosa,
A esperar o dia em que a lua,
Bendita rainha,
Se curve ante as rosas.

sexta-feira, outubro 29, 2010

Já não sei mais se fala ou se tosse
do outro lado da linha e do mapa, distante.
Tua voz sumindo
sumindo pelo fio que consola.
São as crianças pulando nas poças d'água
a chuva estalando na minha capa
os ônibus passando pela avenida inundada
que olho.
A água cobre meus pés.
E é tua voz que não sei mais e não ouço.
Quando você fala dos nossos fragmentos perdidos no tempo
das pequenas mentiras do dia-a-dia
que são para não estarmos sós
eu aprisiono minha lágrima em seu início.
Te digo 'tchau, se cuida, eu te amo sem medida'
querendo dizer nada.
Você compreende e eu vou embora.

quinta-feira, outubro 28, 2010

Enquanto você dormia
brilhava a lua sombras se moviam
tocou o telefone voou o tempo
na cozinha estrilavam pequenas melodias.

Você tossiu, se virou
murmurou pequenos segredos de outras realidades .
Lá fora governos caíam, estrelas viravam poeira.
você dormia e ignorava o universo.

Gigantes brigavam do outro lado do mundo;
máquinas rugiam mas sem nos ameaçar
a terra suspirava,
através dos ventos você dormia.
eu tossi, me virei
até fechar meus olhos
para as pressões do futuro.

Enquanto você dormia,
as horas mudavam
e a gravidade tornava meu amor quase abissal.
Cheia de sonhos você dormia
e seu calor bastava prá tudo estar bem.
Eu andei na ponta dos pés, banheiro cozinha copo d´água.
Meu coração batia alto,
minha mente acesa demais.

Seu rosto assumia contornos
mistérios em preto e branco
e lá fora choveu por meia hora
e eu pensei em filmes
lembranças
campeonatos
praias
lugares onde poderíamos ir
esperei que a manhã
viesse prá dissolver tudo isso.
Você teve o sonho mais estranho antes de acordar
fitou o teto com olhos vazios
voltou ao mundo e sorriu prá mim.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Fins de semana pela orla: amor
Dias e dias de trabalho: langor
Gente passando por todos os cantos: calor
mal educados invasores: furor

Esquecer o chinelo na areia: cabeça vazia
lembrar que sempre há a segunda-feira: apatia
olhar para cima e não ver nuvens: belo dia
olhar para frente e não ver meu amor: isso judia

Por onde passo, os prédios sussurram seu nome
esta cidade nos pertence, minha querida
aqui estão as melhores cenas de nossas vidas

(Luiz Guilherme Amaral)

terça-feira, outubro 26, 2010

modernice




se
você quer saber
quem eu sou


não digo não grito
não falo
nem na marra


a quem insiste
em saber
quem eu sou


que
passe o leitor
sobre o código


de barras

segunda-feira, outubro 25, 2010

Súplica

Amor, me chama de louca,
mas por favor,
me entope a boca
com tua língua, teus beijos e tua saliva.
Me faz viva
novamente
como naquele dia
em que eu quase desfalecia,
dormente,
enquanto teu pau me arrombava por dentro
e minha vida escorria pelo cimento.

Amor, me chama de puta,
me sacode, me assusta,
me mete enquanto grita comigo.
Me inflinge qualquer castigo.
Chicote, tapas, desprezo...
mas derrama em cima de mim
(por favor)
novamente teu peso.

Me faz novamente, por favor
tua escrava, tua cadela.
Depois pega esse amor torto
e exibe pela janela.

Faz de mim, meu amor, teu troféu.
Eu fico aqui no chão, lambendo,
teus pequenos pedacinhos de céu.

sábado, outubro 23, 2010

íntimo

descolo meu ouvido do teu peito

conheço de cor o ritmo

de coração que esquece

de bater a segunda vez

culpa do hábito, do encaixe habitual

e, pra desfazer um clichê,

desloco o afeto ao sul

aos sons cavernosos, molhados

a mais incrível caixa de música

a barriguinha querida de carlos

líquidos fluindo, engrenagens rodando

sem descanso nem ordem


nos seus bastidores


uma música infinita

o vibrar de uma corda viva


(sim)

eu gosto tanto

de te ouvir funcionar

sexta-feira, outubro 22, 2010

para ninguém

Esse pedaço do horizonte
que insiste sempre
no meu olho esquerdo
- entre os prédios,
é seu. E seu só
quando eu penso no nada
que existe
e no seu desprendimento
de vírgula errante
e a falta que faz
mesmo quando está comigo
é ser só
- desatar o nós
da ponta dos nossos dedos.

quinta-feira, outubro 21, 2010

essa pena irremediável de você,
de mim,
de todos que insistem em continuar amando,
da verdade e do erro em nossas crenças,
do absurdo simples do amor
e do absurdo complicado do amor criado pelas pessoas.

quarta-feira, outubro 20, 2010

Dentro de todas as nossas agradáveis surpresas
as mais assustadoras coincidências
são docemente assustadoras, admitirei
porque elas nos deixam ainda mais próximos
porque elas nos dizem em alto e bom som
que devemos atravessar uma vida juntos

E eu não me contento com isso
queria mesmo é atravessar umas quinze vidas
ou atravessar a maior avenida da América do Sul
carregando-te nos meus braços
porque esta cena é o que nossa história exige
se não fomos para ser felizes
então seremos apenas amontoados de papéis
que ostentam algumas palavras doces
carregadíssimos de promessas

Só de cogitar você já é uma inspiração
você sabe disso porque eu não me cansarei
de passar os bilhetinhos mais lindos
por debaixo da sua porta
colá-los no seu espelho
e costurá-los no seu cérebro
porque, assim, você não me esquece nem por um minuto
a ponto de querer atravessar planetas ao meu lado

(Luiz Guilherme Amaral)

terça-feira, outubro 19, 2010

Dejá-vu

O rio do esquecimento é caudaloso.
Mas vão. E perigoso.

Pois não adianta olvidar.
Mergulhar e afogar as lembranças.
Uma hora elas voltam e fazem a lambança.

E nós, que nos acostumamos a viajar
em tranquilas águas azul-turquesa
somos pegos de surpresa.

E nos tornamos de alegres navegadores
em náufragos num ilha de horrores.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Vazio

E esse deserto?
E esse ninguém-por-perto?
E esse nada-nada-nada-a-fazer?

E essa saudade impossível de você?

domingo, outubro 17, 2010

Lamento do ébrio

embriagar
a alma
com doses de
ilusão

ansiar
de esperança,

vomitar


as areias do tempo
enterram
as pétalas de flor

de um amor
que nem nasceu

quarta-feira, outubro 13, 2010

Fica aquela pequena luz de saudade
a cada instante, em cada gesto
Por ora, tudo tem um quê de efêmero
quero meu hálito de lágrima
ainda que elas insistam em não cair

segunda-feira, outubro 11, 2010

Paz

Sabe aquela flor
que coloquei em meus cabelos?
Vi em seus olhos
teu carinho
desenrolando-se em novelos.

E notei que ainda podemos.
Apesar do que se passou.

E notei que algo ainda restou.

sabe aquela flor
que coloquei em meu vestido?
Senti teu desejo
percorrer-me
cada canto escondido.

E eu soube que dançaremos.
Apesar de tudo isso.

E sei que deitaremos
nossos corpos
em nossos sorrisos.