sábado, julho 09, 2011

Da cabeça do Moacir Caetano

Sala de Espera



1.

Juliana gosta de portas abertas.

Ela passa com seu andar apressado
e, com um gracioso movimento de mãos,
desliza o par de portas, solenes.
O sol inunda a sala pelos amplos desvãos.

Outras atendentes passam e
com olhar contrariado
percorrem os trilhos no sentido contrário.
O sol se esconde
e só resta o ar, condicionado, coitado.

Até que venha Juliana nos salvar novamente
e com seus cabelos longos e negros
faça o sol ressurgir de repente.


2.

A mocinha loira piscou o olho.
Não pra mim.
Mocinhas não me piscam mais o olho.
Já estou meio assim assim.

Somente um tique.< br />Um pouquinho estranho, mas gracioso.
Nada que muito signifique.

Ao celular, ela pisca o olho e sorri.
Provavelmente pra alguém
que ela queria que estivesse aqui.


3.

"Mara Lúcia", a atendente chama.

Levanta-se uma jovem senhora,
levando consigo suas múltiplas plásticas,
seus desejos e seus dramas.

Pode ter quarenta anos ou sessenta.
Nào se sabe, impossível.
Mas é difícil acreditar
que o antes fosse mais risível.


4.

Eu, bicho mais que estranho,
recolho-me ao meu caracol...
rezando por uma rápida espera
pra aproveitar o restinho do dia
e sua cota mínima de sol.

Concreto

Sinto falta da minha flor
nascendo em meu corpo cinza.
Sinto falta do que nunca foi
porém sempre é, ainda.

Sinto falta das suas raízes
infiltrando-se em meus interstícios.
E em minha pele de cimento e areia
ainda queimam
suas pegadas, seus indícios.

Sinto uma saudade sua, sempre
que o sol ascende e se acende.
E essa vontade de penetrar
sua pétala luminescente...



Ao csap

Um dia Deus acordou se sentindo estranho.
leve demais... vazio demais...
uma tranquilidade, uma paz...

Tentou pensar no que lhe acontecia
mas não podia!
Algo em seu cérebro estava imperfeito.
Não se sentia onipotente, onisciente...
Algo não estava direito!

Tentou ouvir as milhares de preces diárias,
as súplicas, as lágrimas várias,
os cânticos de dor e de agradecimento,
o coro infinito e lamuriento
dos pobres seres humanos....
Mas devia haver algum engano!

Nada, nada estava lá.
Nem as procissões, nem o professar
da fé em corredores escuros,
nem os confessionários,
nem os doadores milionários,
nem os dízimos suados de quem não tem pra dar.
Nada de sacrifício de cordeiros,
nenhum ritual de auto-imolação,
nenhum homem-bomba em ação.

Não ouvia ninguém nos confessionários,
nem a oração dos santos,
nem os pedidos de perdão dos salafrários.
Tudo completamente mudo.
Toda a balbúrdia de seu mundo
transformada num silêncio enlouquecedor.
E foi-lhe aumentando um temor...

E a conclusão surgiu, dura e fria:
nesse dia,
Deus descobriu que não existia!

Rotina

Te amo mais
quando estamos longe.
Não me leve a mal,
mas te amo mais, meu amor,
quando estamos longe.

Te amo mais quando a conta de luz
não interrompe nossa paz.
Quanda não falamos sobre dinheiro,
casa, carro, cachorro e etc. e tais.

Te amo muito mais, querida,
quando não se metem em nossa vida.
Quando família é apenas um álbum de retratos
e não um bando de gente comendo
e sujando nossos pratos.

Te amo mais quando somos sorrisos
e não rugas de preocupação.
Daí essa constatação
rude e até mesmo meio covarde:
Te amo mais quando somos saudade.


Binomial

É o seguinte, vou lhe contar:
Sou mulher!
É a verdade, não adianta negar!

Sou mulher, mas não se engane:
sou sapatão, é claro!
Gosto de mulher como o diabo!

Mas sou mulher, tenho certeza:
o confirma os copos de vinho à mesa.
A vontade que muda a todo todo instante.
Essa loucura de desejo inconstante.
O querer aquilo e logo depois não.
Os braços abraçando o mundo,
os olhares além da visão.

Gosto de discutir o relacionamento.
Adoro surpreender-me a cada momento.
Gosto de poesia, de dança, de teatro.
De filme europeu, lento, chato.
Sinto falta de demonstrações de carinho
e de carinhos quase secret os.
Gosto de tudo que é contraditório
e sou o meu oposto eu mesmo.
Gosto, não gosto e desgosto, a esmo.

Sou mulher.
Mas sou muito macho.
Um dia ainda me apaixono por mim mesmo
e depois me traio.
Passo a ser meu secreto caso.

Um comentário:

Sandra Regina de Souza disse...

Moacir!!! Cabeça permanente na minha cabeça, no meu coração! Poeta da minha alma!!! "Rotina" é lindo a té machucar!!! Te amo!! bjo