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terça-feira, junho 15, 2010

I

Cala-se o grilo solitário
por falta de assunto.
A madrugada nem sempre faz barulho.
O brejo está distante;
os sapos, não se ouvem de aqui.
Passos no asfalto,
somente os das sombras notívagas;
os bêbados dormem sem roncar.
Hoje até o vento colabora com o silêncio
descobrindo o céu num sopro manso.

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A minha música era Pétala do Djavan. Também achei que ia ser fácil...

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terça-feira, junho 01, 2010

As galinhas vão crescendo pelos pés;
os ovos já passando de maduros.
O gigante sonolento não rasgou ainda tudo,
ao contrário, rasgou pouco.
Pouco mais do que o que, a tinta,
fora marcado no dorso.
As garras inertes da fera temem
guardar sangue.
Pretende voar, mas seu potro tem
as asas fracas e bebe leite.

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terça-feira, maio 25, 2010

Presente

Fui ter com o futuro debaixo de uma lona.
Enquanto uma boca vermelha e uns dentes
dourados proferiam previsões que eu não ouvia,
sentia um cheiro de chocolate,
um cacau de ar, despertador desta saudade.
Saí derrubando cadeira numa pressa.
Caloteei o que não viria.
Um caminho muito conhecido passa
por mim rapidinho de trás para frente.
Continuo correndo, o peito chiando vontades,
tentando alcançar meu hoje, embora eu saiba
que já fizeste as malas.

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terça-feira, maio 18, 2010

Adorno

Passou distraído, tropeçou na flor, eu vi.
A coitadinha pendeu, mas voltou,
manteve-se no seu papel de enfeitar.
Passou de novo muito, muito concentrado em si.
Pisou, quebrou, uma pétala caiu, chorou.
Corri, cuidei, ergui.
Chamaram-no meus dedos cheios de formigas.
Dei-lhe minha flor cansada, doída,
que insistia no seu papel de enfeitar.
Enfeitou-lhe o rosto, fê-lo sorrir.

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terça-feira, maio 11, 2010

Loquacidade

Invento palavras nas lacunas das conversas.
Abismo meus mistérios.
Compreendam meus silêncios.

Mais um roubado de lá: Metade e Pedaço.

terça-feira, maio 04, 2010

Escolhas nem sempre são possíveis
ainda que se escolha reafirmá-las nos dias
até o último.
Qureres têm que nos querer.

Permanece um poste ou uma lua gorda
iluminando a calçada, a calada,
mas sentimentos medos
sombreiam os peitos.

Um facho sai de tuas mãos.


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terça-feira, abril 27, 2010

Sem planos

Não vejo outra coisa, amor, do nosso futuro:
morreremos.

Tudo o que me é escuro não é futuro, amor,
é o ir vivendo.


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terça-feira, abril 20, 2010

Promessa

- Esperar-te-ei enquanto houver cigarros!
Até o último, os acenderei! -
Foi minha promessa.

Não pude cumpri-la.

Cigarros, ainda os tenho.
Meus cinzeiros é que estão cheios.


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terça-feira, abril 13, 2010

Safra

No jardim das fadas boas
há sempre um nariz carregando verruga
chovendo tristeza nas sementes.

Em um outono azul, colhem-se os frutos.


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terça-feira, abril 06, 2010

Lida

Invariavelmente
todo santo dia
faço uma boa ação
exerço a cidadania:
durante o meu turno
dou todo o meu sangue
a um sedento vampiro diurno!


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terça-feira, março 30, 2010

pusilanimidade

Uma lança no estômago
um javali pendurado na orelha
uma bola de ferro em cada pé
de uma borboletinha tonta
que só tem vontade de só voar
e pousar naquela flor azul.


Roubado de mim mesma, lá do Metade e Pedaço.

terça-feira, março 23, 2010

História de um pescador

Tinha saído pra pescar
mas não levou arpão

anzol isca caniço
molinete linha nem rede

Primeiro molhou os pés
depois decidiu mergulhar
(a decepção)

Naquele dia
Omar estava mais para ostra
do que para peixe

terça-feira, março 16, 2010

jogo de azar

deixo a vida à mercê de minha fortuna.
Não cuido do futuro...

as grades ficam destrancadas,
os pedais voam sozinhos

meus pés têm quereres que não são meus,
os giros são involuntários

assino acordos jogando dados,
meu próximo endereço nem existe

meu destino é não acreditar na minha sina
e contar sempre com a sorte

Nestes dias, tenho contado à sorte
sobre todos meus reveses

terça-feira, março 02, 2010

Ester

As irmãzinhas
a vigiam das alturas.
Tremeluzem
vozes dizendo que a amam.
Piscam piscam
anos-luz de saudades.
Caída e solitária,
contempla a noite clara.
As irmãzinhas
lhe brilham as lágrimas.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Despretensão

Ventos não decidem folhas que varrer
Não escolhem saias que levantar
Ventos bagunçam cabelos sem saber
Pois que só ventam por ventar


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terça-feira, dezembro 15, 2009

cinco minutinhos

Nas prateleiras, as capas dos volumes
têm, todas, a mesma cor do pó.
É morada de uma aranha, o violão,
já bem acostumado àquele canto.
Perderam-se, os rascunhos, sobre a escrivaninha;
alguns no chão, espalhados por um raro vento.
A cortina filtra a luz da velha lua
enquanto ignoro a arte projetada na parede.
As pantufas, há muito, repousam ao lado da minha cama
porque meus pés ficam apressados quando ouvem o despertador.
Mesmo que eu sempre peça às horas
mais cinco minutinhos.

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terça-feira, dezembro 08, 2009

Mundo ideal

Quero viver em um mundo em que a ordem seja a loucura.
Em que um abraço seja o bom-dia ao porteiro
e um beijo, o ingresso do cinema.
Em que sejam estranhos os que andem calçados
e punidos os que não contem estrelas
só por contar.
Em que o mais importante ofício
seja procurar semelhanças entre pipocas e nuvens.

Quero viver em um mundo em que a ordem seja a loucura.
Em que se tome sorvete de sopa de lentilhas no inverno
e que ardam fogueiras em qualquer estação.
Em que se usem binóculos para matar a saudade dos que estiverem ao lado
e pinças para colecionar as pintas e as rugas do amor.
Em que toda segunda-feira chuvosa seja o dia oficial
de se deitar de bruços no gramado e conversar com as formigas.

Quero viver em um mundo em que a ordem seja a loucura.
Em que homens virtuosos sejam os ébrios e os nus
e vivam sempre de cara limpa os imorais.
Em que sejam internados os incapazes de escutar conselhos
de espelhos e paredes.
Em que seja normal
quem acenda um poema na madrugada
para ler partículas de luz em uma face.

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terça-feira, dezembro 01, 2009

Recordações

Num impulso, virei de cabeça para baixo
as três caixas de sapatos
repletas de fotografias nossas.

Espalhei todas as fotos pelo chão da sala.
Só você e eu impressos, felizes,
abraçados ou de mãos dadas.

Rasguei ao meio uma a uma.
Joguei fora todas as metades.
O que sobrou coube em uma só caixa.

Vou economizar espaço no guarda-roupa
só com você e seus sorrisos dentro da caixa.
Quero recordar-me sempre de você
como a melhor coisa que me aconteceu na vida.
E quero esquecer a pessoa ingênua que fui
durante todo aquele tempo guardado em três caixas de sapatos,
durante todo aquele tempo em que acreditei em você.


Tem mais em: http://duaspartes.blogspot.com

sexta-feira, novembro 27, 2009

Acontece que

Eu te levaria para dar a volta ao mundo,
Eu te despiria
E te levaria para a minha cama,
Eu teria contigo todos os sonhos, inclusive os proibidos,
Faria todas as tuas vontades, principalmente as inconfessáveis...

Acontece que a tua alma é pura como uma borboleta.


Hoje, última sexta-feira do mês, estou encerrando minha participação (especial, espero) no blog. Agradeço a simpática acolhida! Continuo acompanhando vocês e escrevendo aqui.

quarta-feira, novembro 25, 2009

PROLIXO

A minha poesia
Gruda minhas paixões
Aquelas mesmas que me pegam de jeito
Que me mudam o rumo
Que me partem
Se partem
Ficam
Vão
(de ir embora,
o verbo que se vai,
nunca é aquele
que não vale a pena).

A minha poesia
Se rende sempre ao todo
Do meu jeito fácil
De me apegar
Apaixonar
Correr
Lutar
E voltar atrás
E voltar
Voltar...
Pois sou assim
Aquele que se apaixona.

A minha poesia
Esquece os trancos
Barrancos
Se entrega ante a minha entrega,
À minha entrega
Cola na pele
Rasga
Conserta
Enxerta
Salta.

A minha poesia teima
Em ser assim
Sem revisão
Com sobras
Sem tempo
Com desleixo
Sem fuga
Com jeito

A minha poesia
Fala demais
Prolixa!
Mesmo quando (nesse segundo)
Só queria falar de saudade.


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E chegou a última quarta-feira de novembro e a minha saudade daqui vai ficar.
Foi uma honra participar desta constelação de versos.