sábado, março 31, 2007

RENDIÇÃO

Dentro de mim mora um velhinho.
Oitenta e tantos anos.
Sem esperanças, sem planos.

E quase todo o tempo sozinho.

Vasculhador de lembranças antigas,
o hoje é sempre o seu passado.
Buscando sempre desesperadamente algo

que valha a pena.
(Afinal, sua alma não é pequena...)


Deita-se cedo, muito cedo
e acorda mais cedo ainda.
Preenche seus dias com o medo
do destino que se avizinha.

Não lembra o nome de seus netos
e já se esqueceu
de como ser feliz.
Suas frases não se terminam,
seus sonhos são secretos...
e a cada batida do coração já velho
não morre por um triz.

Dentro da minha pele ainda jovem,
ele se debate.
Busca espaço pra crescer
e, apesar da dor nos ossos,
está sempre pronto pro combate.

A cada dia, ganha uma batalha.
E instala seu deserto solitário
em mais um pedaço de mim.
Eu, medroso e salafrário,
bato em retirada
à simples visão de sua armada.
Meu não é sempre um s(f)im.

Dentro de mim mora um velhinho
que já não tem paciência nem sorte.
Por isso abre as portas pra dor
e convida a morte.

2 comentários:

Leandro Jardim disse...

forte e bonito, Moa!

abraço Jardineiro-o-o

Marina disse...

Lindo, Moacir!

Gostoso de ler. :)

Bjuss