sábado, dezembro 06, 2008

Ensaio

E então imagino você...
numa casinha à beira-mar...
aquele cheiro maravilhoso
de sol e sal e areia pelo ar.
(praia tem um cheiro todo especial,
cheiro de etcetera e tal).

Uma rede na varanda...
um solzinho tépido...
me transporto, rápido, lépido,
até o espaço da minha imaginação
onde a distância não.

E, deitadinha na rede, você,
linda morena...
cabelos negros balançando com a brisa...
uma expressão serena
e uma preguicinha imprecisa.

Os olhos fechados, sentindo o carinho do vento...
o calor ditando a velocidade do pensamento
que ao longo da orla se estende...
alcançando-me, ao chão me prende,
no vão entre os pilares de madeira,
a observar sua brincadeira.

Muito, muito, muito calor...
Você está bem à vontade...
O desejo me invade.

Já são quase sete da noite,
o sol já devia ter ido embora...
mas ele espera, cheio de marola,
só pra poder tocar sua pele um pouco mais...
(não posso culpá-lo por idéias tais!)
e você sorri, sabendo muito bem
que ele só está ali por causa de você.
A noite, impaciente, que aguarde
o danado desaparecer.

E eu ao lado te olhando,
certo de que você nem imagina
que eu estou por perto.
(ou sabe, mas finge que não...
Mulheres...
como saber ao certo?)

A sua mão, preguiçosa,
passeia por seus cabelos,
toda alegre, toda prosa.
(ah, é um carinho que eu
gostaria de fazer,
mas e o medo de aparecer?)
Elas brincam, dançam, flutuam,
em cada um dos cachos, demoradamente...
(Agora a danada da lua
já apareceu, linda, crescente.)

Você não tem pressa, sabe que eu não vou embora
sabe que eu vou continuar te olhando...
Sabe meu medo e meu encanto.

Num movimento suave, quase melífluo,
você se reclina
um pouquinho à frente,
pra que eu possa te ver claramente
(e eu, coitado, ainda na dúvida... ela sabe ou não???)
E sua mão
agora caminha pelo seu rosto...
olhos, queixo, boca (quase sinto o gosto...)

Não me permito nem ao menos piscar,
pra não perder absolutamente nada.
Sua pele levemente eriçada
Denuncia um longo arrepio
Que certamente não é pelo frio...

Impressionante como,
mesmo sem olhar em minha direção,
você adivinha minha reação!

Num arroubo de coragem,
me aproximo mais um pouquinho
(que medo! será que ela sabe???)

E então posso ver-te inteira.
Um vestido branco, longo,
cobre seu corpo de forma ligeira.
E, com a luz do fim do dia, fica claro
que nada mais há sob o tecido raro.

Suas mãos, antes calmas, agora impacientes,
brincam com a barra da saia, insistentes.
Querem se livrar, têm calor, mas algo as impede...
elas não sabem bem o que é, mas o sabe sua pele:
Elas esperam pelas minhas mãos!
E eu, homem que sou, ainda hesito,
ainda temo sua reação,
mesmo contra todas as evidências
que seu corpo me dá, então você perde a paciência...

E seus olhos encontram os meus!
Agora não há dúvida, meu Deus!

A partir então desse momento
seu sorriso me diz mais que qualquer palavra
e meu corpo chega, segundos depois da minha alma.

E minhas mãos envolvem as tuas
(não se esqueça, sou um homem,
e ainda temo suas estrelas e suas luas...)
e são as tuas mãos sob as minhas que me mostram o caminho.
Quase me perco, não posso sozinho.
E nossas mãos passeiam pelos teus cabelos...
Descem pelo teu pescoço, te descobrem os pelos,
perambulam pelo seu colo
e, de leve, tocam seus seios.

O ar me falta por alguns segundos...
e a ti também...
todo seu corpo agora me contém.

Um pouco tímidas, suas mãos escapam dali
e chegam ao seu ventre
(lembra, o sol já se foi)
e lentamente acaricio seu umbigo, abismo...
já é noite... e ainda assim suamos, calor!

Fugimos então do próximo destino
E à sua frente me reclino.
E acaricio seus pés
Numa deliciosa dança,
dedo por dedo,
dobra por dobra,
descobrindo cada reentrância...

Pouso as solas de teus pés em meu peito
E inicio, ainda insatisfeito,
o longo caminho de suas pernas...
maravilhoso caminho.
Meus lábios se inclinam um pouquinho
e beijam seus joelhos
e as suas coxas nas partes internas.

Sua mão,
que não mais necessita ser meu guia,
meus cabelos acaricia.

E minha boca segue (agora sim)
o caminho mais óbvio, enfim...
Suas mãos em minha nuca
me empurram com fluência
em direção à sua urgência...

e sinto, enfim, seu gosto...
quase sinto o calor que invade seu rosto...
suas mãos procuram por mim
e me encontram, inquietas,
alimentando-me fantasias antes secretas.

Já não me resta outra alternativa...
Me levanto e me deito em sua rede,
Sob uma luz quase furtiva.
Num passe de mágica, seu vestido desaparece
e é extasiante
o encontro entre nossas peles...
Seus seios roçam minha barriga...
e nossas bocas se reencontram, velhas amigas.
Um beijo quente, molhado, um beijo de horas
(morango, cerejas, amoras).

E mãos e braços e pernas se entrecruzam...
descubro o sabor que tem sua nuca.
Percorro cada centímetro das suas costas
e puxo seu corpo contra o meu...
E o mundo explode, ateu!

Já não vejo nada, já não penso...
sou todo prazer!
Somos apenas sentidos...
Devagarzinho, os sons nos chegam aos ouvidos.
A rua, os carros, a vida lá fora
voltam a existir só agora.

Nossos olhos estão fechados,
mas ainda assim nos olhamos...
sem pressa, sem planos.

Exausto, seu corpo repousa sobre meu peito...
e fico surpreso em sentir
que esse momento perfeito
é ainda mais belo que o ápice em si.

A lua de longe sorri,
enquanto me recomponho
e aproveito o momento, sabendo que foi tudo um sonho!

5 comentários:

Fellipe disse...

++

Cosmunicando disse...

belo ensaio!

=)

Mary disse...

e meu corpo chega, segundos depois da minha alma

achei lindo isso!

que delícia de encontro... belo, moa!

bjuss

Sandra Regina de Souza disse...

"somos apenas sentidos"!!!!! Sinto isso... delicia de poema com versos que vão muito além dos sentidos!!...

J.F. de Souza disse...

FORTÍSSIMO!!!

EXCELENTE!!!