sábado, outubro 18, 2008

Fábula Rasa

Sentado no vaso sanitário
(último refúgio de tranquilidade
no moderno mundo hiper-vário)
vejo no azulejo a aranha.
Dessa de perna fina,
indefesa e pequenina.

Tinha quatro pernas apenas.
(deveras, um probema!)

Pra aumentar a estranheza
três delas à sua direita
e à esquerda apenas uma.
E se equilibrava, assimétrica pluma,
entre as semi-retas sem esquadro dos rejuntes.
Aranha transeunte.

Resisto à imediata propensão ao esmagamento
que me acomete
sempre que uma aranha me cruza o carpete.
Analiso com comedimento
como é que uma aranha se porta
sem quatro pernas, desalinhada, toda torta.

O mais estranho em todo o quadro
é que a terceira perna de um dos lados
se estendia à frente antes do passo.
Tateava antevendo o chão vindouro,
como uma tacanha antena,
como que em busca de um tesouro.

E seguia a aranha, em círculos minúsculos,
quatro pernas apenas,
metade de seus músculos.
Será que uma aranha entende de poesia?
Haverá nos aracnídeos
algo que os diferencia?

Cansado da simpatia
- brincadeira tão infantil -
esmago de uma vez, sem senões,
aranha e divagações.
Afinal, não posso perder um minuto.
Sou do banheiro
o rei absoluto.

5 comentários:

aline disse...

pobre aranha, pobre aranha.


adorei.


(L)

Múcio L Góes disse...

Moa, aqui cabem muito bem um "pqp!!!!", "caralho!!!", "que foda!!!!" [rsrsrs]

lindo, cara! bem trabalhado, perfeito como uma teia. ;)

destaques para:

1- Sentado no vaso sanitário
(último refúgio de tranquilidade
no moderno mundo hiper-vário)

2- e à esquerda apenas uma.
E se equilibrava, assimétrica pluma, entre as semi-retas sem esquadro dos rejuntes.
Aranha transeunte.


3- Será que uma aranha entende de poesia?
Haverá nos aracnídeos
algo que os diferencia?

4- Cansado da simpatia
- brincadeira tão infantil -
esmago de uma vez, sem senões,
aranha e divagações.
Afinal, não posso perder um minuto.
Sou do banheiro
o rei absoluto.


enfim... amarrações perfeitas, das que enchem os olhos! vai, sim, para minha "gaveta dos preferidos", onde já trago quintanas, leminskis, drummonds, moacires, marinas, czarinas, sandras, alhis, jeffs, jardins e afins.

parabéns, velho! poesia é respirar belezas; vc bem sabe!

nao mergulhei por inteiro no teu livro, ainda, mas, este tá lá??

vlw, abração!

ps: e ao som de mark knopfler, e lá se foi toda a seda da china. rsrs

A czarina das quinquilharias disse...

adorei a estranheza.
mestre!

J.F. de Souza disse...

Na minha vida, não há espaço pra poesia
Jeff esmaga!

Sim, sim, Moa! Dos melhores teus! Eu, pelo menos, adorei este!

1[]!

Mary disse...

Moa! Como o Múcio disse, esse é pra guardar na "gaveta dos preferidos"!

Simplesmente maravilhoso!!! :~

:*